Por Ted Sartori
Da Revista Mais Santos
Há quase oito anos, o Santos esteve na mira dos racistas. Em 28 de agosto de 2014, o goleiro Aranha defendia o Santos no primeiro jogo das oitavas de final da Copa do Brasil, diante do Grêmio, em Porto Alegre. O Peixe venceu por 2 a 0, mas o destaque acabou ficando por conta dos atos de injúria racial por torcedores gaúchos, flagrados pelas câmeras de TV, contra o arqueiro, que foi chamado de macaco.
O agora ex-goleiro se posicionou publicamente na época, o que deu ainda mais peso ao caso. O STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) excluiu o Grêmio da competição, não houve partida de volta e o Santos classificou-se automaticamente.
Quase oito anos depois do caso, Aranha conversou com a Mais Santos. Ele recordou a respeito do tema – o time gaúcho, inclusive, foi excluÃdo da competição – e também falou sobre o seu lado escritor, que possui relação direta com uma luta que segue mais do que firme.
Mais Santos: Você considera o caso do qual você foi vÃtima em 2014 um divisor de águas para você, sua carreira e até para os casos que, infelizmente, continuaram acontecendo? Por quê?
Aranha: Sim. Acho que, depois daquele episódio e do meu posicionamento, muitas pessoas se sentiram encorajadas a denunciar.
Há pessoas que consideram que a reclamação de racismo e de injúria racial por parte do atleta (ou qualquer pessoa) seria uma espécie de vitimismo. Como você encara este tipo de opinião?
Isso se encaixa no mesmo problema do assédio e estupro, onde a primeira pergunta é sobre a roupa que ela estava usando, como se isso validasse o crime. Normalmente, uma pessoa racista pensaria assim.
Em algum momento você acha que se expôs demais sobre o assunto? Ou foi a exposição que deveria ter sido feita? Por quê?
Não tem como resolver um problema sem falar sobre ele. Acho que a exposição vem de acordo com o interesse das pessoas sobre o assunto. A mÃdia mostra ou procura quem o povo quer ver e ouvir.
Oito anos depois, como você avalia a postura dos jogadores, torcedores, imprensa e envolvidos em geral com os casos que continuam acontecendo? Melhorou, piorou ou está igual? Por quê?
Estamos avançando, vivendo um novo momento de debates e ações para diminuir os danos causados pela escravidão e o racismo. O fato do racista brasileiro estar mostrando a cara agora indica que estamos no caminho certo.
Quando um caso de racismo acontece com uma pessoa considerada pública, a repercussão naturalmente é muito maior. Desde aquele caso ocorrido com você, casos de pessoas anônimas chegaram até o seu conhecimento, pela referência que você se tornou no assunto? Houve algum que chamou mais a sua atenção?
Sempre recebo muitos vÃdeos e reportagens sobre o assunto, porém o que tem mais me chamado a atenção são os casos de senhoras sendo libertas do trabalho análogo a escravidão, após uma vida toda de muito sofrimento.
Passados oito anos do seu caso, você considera que houve algum aprendizado por parte das pessoas em geral a respeito do assunto? Caso tenha acontecido, de qual nÃvel? Por quê?
Sim, porque não existe a possibilidade de alguém receber tanta informação e não aprender nada.
Gostaria que você falasse a respeito do livro Brasil Tumbeiro (Editora Mostarda), de sua autoria e que fala justamente sobre a história do negro no PaÃs.
Comecei a escrever o livro em 2017, porque entendia a necessidade de contar a história de uma maneira suave, sem militância e nem cunho polÃtico, só a história do Brasil mostrando a participação dos negros e suas lutas. Â
Além deste lado escritor, o que você tem feito depois de pendurar as chuteiras? Atividades dentro e fora do futebol, claro.
Fui colunista no portal UOL, sou palestrante e também ajudo na organização do Afrontalks, além de apresentar. Sou também coordenador de futebol no Mogi Mirim Esporte Clube e ativista, participando de muitas lives e entrevistas falando sobre racismo no esporte. Como escritor, devo lançar outro livro na Bienal de SP.
Qual será o tema?
O livro é sobre José do PatrocÃnio e fará parte da coleção Black Power da Editora Mostarda. Será uma minibiografia voltada para crianças. José do PatrocÃnio é um personagem na história do Brasil cheio de episódios marcantes e que foram apagados. Foi dele o primeiro automóvel do Brasil e dividiu com Santos Dumont o sonho de voar, que foi seu último projeto: o dirigÃvel Santa Cruz.
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