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Santos / Cotidiano

O amor além das barreiras

Por Silvia Barreto
Da Redação Mais Santos

Nem todas as pessoas são iguais. As diferenças também podem uni-las e o amor é o elo. Luiz Eduardo Tavares, o Dudu, 42 anos e Mariangela Lorena da Silva, a Mari, com 46 anos, são a prova de que é possível ter sentimentos pelo outro, independentemente de suas limitações.

Ele é portador de Síndrome de Down e ela, intelectual. Namoram há pelo menos 10 anos, tempo suficiente para fazer com que esse relacionamento unisse, também, suas mães. Elas coincidem no nome – ambas se chamam Maria José – mas também no amor pelos filhos, na torcida por essa união e até sobre o planejamento para o futuro dos filhos. Ambas também atuam como voluntárias na APAE – Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de São Vicente.

“Eles se conheceram na APAE. Aqui somos eu e o Dudu, porque meus outros filhos não moram aqui, e lá são ela e a filha, sozinhas. Não vamos querer que eles casem. A filha dela não sai de perto dela e vai levar meu filho, e eu não quero isso e ela também não”, conta a mãe do Dudu, a Maria José Florentino, 71 anos.

Atualmente eles frequentam as atividades oferecidas no Centro Dia, em São Vicente, compartilhando as salas de aula e as práticas de tênis de mesa e teatro realizados na Unimes – Universidade Metropolitana de Santos. O dia a dia do Dudu inclui ainda o futebol, praticado no Projeto Up Santos.

As mães acompanham toda a programação, inclusive, os passeios do casal. “Levamos os dois ao cinema, tomamos lanche à tarde no shopping, ou vamos para a casa delas ou elas vêm aqui. No domingo, Dia dos Namorados, eu as convidei para almoçar aqui, porque meus netos estarão conosco. No final de semana costumamos ir para lá. Eles passam o dia juntos ouvindo música, conversando ou no computador. No final somos uma família, pois convivemos juntas”, descreve a mãe de Dudu, revelando os presentes que serão trocados nesta data: ele dará um urso com coração e ela, um tênis ao amado.

Outra característica do casal é auxiliar as mães em suas atividades domésticas. Maria José Lorena da Silva, 65 anos é a mãe da Mari e a ensinou a cozinhar, lavar e passar roupa. Já o Dudu aprendeu a lavar o banheiro e até fazer brigadeiros e beijinhos que a sua mãe faz para vender, junto com o bolo caseiro que produzem em casa.

Diante de tanto amor, as mães celebram a felicidade do casal: “Eles são felizes. Quando voltam da escola ainda fazem vídeo chamada e falam: ‘Oi, amor. O que for para o bem dele, eu faço. Ele é a razão da minha vida. É tudo de bom que tenho. É a coisa mais linda do mundo’”.

Os sentimentos

A busca pelo corpo perfeito e a vaidade de ter o par também perfeito ainda existe nos dias atuais. A análise é da psicóloga Márcia Atik, que ressalta o quanto a nossa humanidade evoluiu nos últimos tempos neste assunto. “Temos que levar em consideração que tem pessoas superiores, mais sensíveis, que promovem encontro de almas e são almas que se complementam, ou da mesma deficiência ou em deficiências diferentes”.

Ela destaca o quanto pessoas com realidades parecidas podem se ajudar, compartilhando suas limitações e encontrando mecanismos para superá-las. “Duas pessoas cegas que têm as mesmas necessidades e dificuldades. Se pensar bem, acaba sendo o casamento perfeito. Casamento de dois jovens com Down também tem anseios e necessidades semelhantes. Claro que precisam de uma supervisão, as vezes”, enfatiza.

Diante de tantas diferenças, a psicóloga faz um questionamento: “Quem disse que o afeto é restrito as pessoas ditas normais?”. Ela também coloca sob ressalva a sexualidade para esses casais. “Ela pode ser exercida de uma maneira saudável dentro de um relacionamento”, finaliza.

O amor às escuras

Foi por intermédio de um grupo virtual no aplicativo de mensagens que Angela França, 67 anos, despertou o interesse por Alberto José da Silva, de 56. Os dois integram o grupo de pessoas assistidas pelo Lar das Moças Cegas, mas até então não mantinham contato presencial. Em dezembro de 2021 ela ouviu uma mensagem enviada por ele. A partir daí seu coração começou a bater mais forte e, após algumas conversas, ela tomou a iniciativa e ligou para ele.

“Eu me apaixonei pelo Alberto pelo ser humano que ele é, pelo interior dele maravilhoso que ele tem. É carinhoso, amigo, parceiro, chora e ri comigo. Era tudo isso que eu queria em um homem”, descreve Angela, mãe de dois filhos: uma que mora na Grécia e o outro no Guarujá.

Desde então estão juntos e há 7 meses dividem as alegrias, dificuldades e superações de suas vidas. “Ele me convidou para ir a sua casa e conhecer a família. Eles gostam de mim, pois sou muito comunicativa. Até já adotei a mãe dele – a chamo de mãezinha”, conta Angela, descrevendo as atividades domésticas realizadas sempre em parceria.

O carinho se faz presente a todo instante e é ressaltado das mais diferentes formas. “Falar eu te amo é muito fácil, mas nas atitudes é que vamos ver se gosta e ama mesmo. Temos nossos momentos de carinho, lazer (vamos até a Lagoa, no Morro da Nova Cintra, próximo ao local onde ele mora), ajudo ele a fazer cortina de barbante, estudamos braile juntos, fazemos tapete. É uma vida normal como qualquer outro casal”, ressalta Angela, que vive um novo momento, não só no relacionamento, mas em sua vida pessoal: se adaptar com a visão praticamente nula.

O futuro ainda não foi definido por eles, mas a certeza é que a parceria vai continuar enquanto estiverem juntos. “A gente enxerga com o coração. Tem gente que enxerga e não vê e a gente não enxerga e vê”, descreve Angela.

Foto: Reprodução