Por Ted Sartori
Da Revista Mais Santos
A doçura do caju e a quentura do fogo não combinam aparentemente em nada. Não na vida de Magda Nogueira, presidente da Associação de Amparo Projeto Caju, no Marapé, em Santos, que ajuda famílias em situação de vulnerabilidade social.
O caju responsável por dar nome à iniciativa não tem a ver com o fruto, mas com o apelido do amigo Rodrigo, em razão de ser ruivo como o alimento. Ela o conheceu em 2017 pelas redes sociais, por intermédio de outro amigo, e o perdeu no ano seguinte, vítima da depressão.
“Assim, vejo o coração do meu amigo batendo em outras vidas”, afirma. “Quando nos conhecemos pessoalmente, ele me apresentou às comunidades, como a do Marapé, por exemplo. Ele é que me tirava de casa porque eu quase não saía. Tinha muito medo. Estava com síndrome do pânico. Essas visitas serviam para me mostrar que existiam pessoas que passavam por situações difíceis, mas não desistiam nunca. Com a morte dele, fiquei muito pior”, relembra.
A síndrome do pânico aconteceu em razão de incêndio em seu apartamento, ocorrido em 2016 em razão de curto circuito provocado por uma cafeteira elétrica que esqueceu ligada. “Havia gasto R$ 90 mil na reforma. Perdi tudo”, conta.
Separada e com quatro filhos (ninguém estava no local no momento do fogo), Magda era funcionária pública – trabalhava na Fundação Casa, de onde saiu em 2020, após 15 anos – e perdeu tudo, mas ganhou outra coisa muito importante.
“Costumo dizer que sou filha da solidariedade. Senti e vivi ali. O Grupo Pão de Açúcar nos doou tudo que perdemos, das roupas à reforma e utensílios domésticos. Meu filho Pedro foi violinista do Grupo dos 10 aos 18 anos, idade máxima do projeto. Sou muito grata a eles. E a gratidão é o caminho para oportunidades”, recorda
Transgressão solidária
O Projeto Caju começou a ganhar corpo mesmo em 2020, depois dos deslizamentos nos morros que atingiram cidades da Baixada Santista, como Santos, São Vicente e, especialmente, Guarujá.
“As famílias que ajudávamos começaram a nos procurar. Foi então que me reuni com alguns amigos e iniciamos”, afirma. “Na pandemia, atendi 5 mil famílias com cestas básicas. Nesta Páscoa, atendemos seis comunidades, levando amor e chocolates. Uma vez por mês, fico com as crianças na quadra da União Imperial fazendo atividades dirigidas. O intuito é tirar da rua, trazendo lazer e cultura. Também ensinamos empreendedorismo ás mães e dou palestras em escolas explicando o que é a solidariedade”, emenda.
Ao mesmo tempo em que vieram os deslizamentos, a pandemia de Covid-19 também surgiu e foi igualmente decisiva no processo. Tudo fruto de uma transgressão solidária, digamos assim, provocada por vários corações insensíveis e um que compreendeu o que Magda estava fazendo.
“Por não sair de casa e outras pessoas não irem ao mercado, um ponto de arrecadação, entregava cestas básicas na porta de meu apartamento. Os moradores se reuniram e disseram que eu estava depreciando o valor dos imóveis. Tinha 50 cestas básicas para entregar e tudo estava bloqueado. Conversei com um guarda municipal que, vendo minha situação, autorizou que eu fizesse a entrega, mas que não ficasse por muito tempo, pois ele fingiria que não estava vendo”, conta.
O guarda tomou bronca do Poder Público por causa da permissão, mas isso acabou sendo bom. Magda foi chamada na Prefeitura e um espaço na sede da Sociedade de Melhoramentos do Marapé foi cedido para que ela arrecadasse doações. “Ganhei uma sala e também me ajudaram para que o projeto se institucionalizasse. Foi um marco de minha história”, define.
Quem quiser ajudar a Associação de Amparo Projeto Caju, que fica na Rua 9 de Julho, 111, no Marapé, em Santos, pode fazê-lo com dinheiro (o PIX é 41-994-631/00001-50), com doações nos mercados parceiros (Pão de Açúcar – Loja Avenida Presidente Wilson, 94, em Santos -, Rede Fransue, Colosso e Empório Casa Porto), na própria instituição ou sendo voluntário. O Instagram é @projetocajuoficial. O telefone é 13 99194-5277.