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Santos / Cotidiano

Coisas de uma casa de sonhos: a história de vida de Dilma Machado

Por Ted Sartori
Da Revista Mais Santos

A rotina da empresária Dilma Machado é intensa. O horário é variável para a chegada no trabalho. Foi algo a que ela se permitiu quando concentrou em um todos os estabelecimentos que tinha. No entanto, algo não mudou: ela é sempre a última a sair. “Minha casa e a loja são muito parecidas. Eu fico à vontade nos dois lugares. Só que eu quase não fico em casa”, afirma.

São Coisas da Casa, como é chamada a loja comandada por ela na Rua Azevedo Sodré, no Gonzaga, ponto nobre do comércio santista. No letreiro da fachada está o nome de Dilma, referência de design de ambientes que ultrapassou fronteiras e resume uma história de sucesso, com lances que parecem fortuitos e, na verdade, são frutos de muito suor e senso apurado de observação.

“Minha ideia não é venda, mas sim perguntar ao cliente: o que você precisa? E, às vezes, o cliente não sabe que ele precisa de determinada coisa que vai facilitar”, afirma a empresária.

Nada foi fácil. De dificuldades Dilma Machado entende. E mais ainda de superá-las. Ela nasceu em Santos, há 71 anos, filha de pai espanhol e mãe da Cidade. É a segunda de uma família de sete irmãos. As mulheres se formaram professoras – desejo da mãe – e viraram empresárias, na maioria lidando com roupas. A única que mexe com decoração é Dilma.

“Desde menina, gostava de pintar. Pintava sabonete, pano, papel e tudo o que eu via, com tinta guache, lápis de cor e outros elementos. Sempre gostei do que era bonito, que fazia brilhar meus olhos. Até me arrepio. Quando vejo alguma coisa muito bonita e muito bem-feita, tenho uma identificação imediata com essa coisa”, recorda.

Aparentemente a vida de Dilma seria a de dona de casa. Vieram o casamento, o divórcio, três filhos, a faculdade de Arquitetura e a disposição para começar a trabalhar, até porque Dilma preferiu não receber pensão do marido. Ela foi ser projetista em uma loja da Elgin de mobiliário para cozinhas, também em Santos. Não demorou para que mudasse para uma função que, surpreendentemente, não combinava com sua timidez demonstrada ainda nos tempos de escola.

“Com um ou dois meses, o dono me transferiu para vendas porque ele achou que eu era muito boa nisso. Nunca tinha trabalhado. Ficava olhando-o vender e achava muito interessante. Ele, o dono, era um vendedor fera. E comecei também a atender quando tinha muito movimento. Ele viu o meu atendimento e falou que queria que eu passasse para a área de vendas”, conta. “Quando você toma a decisão de criar seus filhos, você precisa encarar, arregaçar as mangas e seja o que Deus quiser. Só pode dar certo e ponto. Não tem espaço nem tempo para dar errado”, emenda.

O detalhe é que a loja estava para fechar quando Dilma entrou. E veio a virada por suas mãos. A necessidade de trabalho e a proximidade de casa – conseguia ver o quintal e as crianças desde o serviço -, aliadas à sua organização, fizeram a firma funcionar. O olhar da decoração começou aí, ao notar a ausência de beleza no local e outros problemas que certamente redundavam na falta de movimento.

“O dono, que era de São Bernardo do Campo, vinha apenas algumas vezes por semana. E me deixou à vontade. Trouxe coisas de casa, como quadros e peças de decoração. Levei até vassoura e rodo, além de chamar faxineiro. Demos uma geral”, relembra. “As cozinhas planejadas não tinham uma panela ou decoração. Nem cor o lugar tinha. Eram seis cozinhas montadas e mais nada. E os funcionários que ele tinha eram um terror”, emenda.

Em menos de seis meses, Dilma Machado já tinha virado gerente. Com oito, recebeu 10% de sociedade no negócio. Mudou todos os funcionários e, depois de colocação de anúncio, recrutou arquitetos recém-formados para trabalhar – Melba Nadais Aidar, futura afamada profissional da área na Cidade, foi uma delas.

“Para você ter uma ideia, o pessoal da Elgin veio até à loja para saber o que estava acontecendo porque eu vendia mais do que a de São Paulo, que ficava em um senhor ponto e com uma senhora montagem. Mas tinha uma explicação: gosto do que faço, já vou chegando e arrumando”, detalha.

Clientes, ampliações e inquietação

O sucesso foi tanto que Dilma chegou a ser convidada para supervisora na fábrica, em Campinas. A atenção aos filhos ainda pequenos, no entanto, impediu que ela aceitasse o cargo. Embora os projetos fossem vendidos em profusão, havia problemas de entrega por parte da Elgin, causando a situação de cozinhas semiprontas pelo defeito de uma corrediça ou de um puxador. Uma marcenaria, então, foi montada no quintal da casa e, posteriormente, em São Vicente. Na carreira de Dilma, porém, uma coisa sempre puxa a outra na casa. Literalmente.

“Vendo as cozinhas bonitas, as pessoas diziam que precisavam fazer o banheiro, armários, quarto da filha e não sei mais o quê. Pensei: se eu já tenho uma marcenaria, vou fazer tudo”, lembra. E nasceu um estabelecimento no Valongo, em Santos, que atendeu a muitas demandas e teve até showroom, algo inédito no ramo naqueles tempos. A inquietação da empresária, porém, é incrível. Apareceu uma fábrica de cerâmica para vender e ela comprou. Ficava na Rua Marechal Pêgo Júnior, também na Cidade. E a sequência comercial continuava.

“Minha filha tinha uma lojinha na frente, mas vi a necessidade de estabelecê-la em outro lugar. Veio então a ideia de comprar uma loja no Praiamar Shopping, quando ele estava abrindo as portas. Pego a mercadoria que eu faço, coloco na loja e ela vende dentro do shopping, algo mais organizado”, conta. Era o nascimento da Coisas da Casa.

Novamente a procura dos clientes por outros artigos, como talheres, pratos, xícaras e outros tantos itens sofisticados, levou à ampliação do negócio. A concorrência de produtos vindos da China, porém, levou ao fechamento da fábrica de cerâmica. Depois, foi a marcenaria, apesar do sucesso. A ida de funcionários para a Itália e a racionalização da rotina de trabalho dela própria levaram a isso.

As ideias borbulhavam na mente de Dilma Machado. Montar um estabelecimento no Gonzaga passou a ser o objetivo, o que aconteceu na Rua Fernão Dias, em frente à lateral do Shopping Parque Balneário, o que ajudou bastante no êxito. A história, porém, seguia seu curso. Ao passar pela Rua Azevedo Sodré, uma placa de aluga-se chamou a atenção. O imóvel, perto do atual, virou o alvo, totalmente atingido. O sucesso e as necessidades dos projetos tornaram o local pequeno. Até que surgiu uma nova oportunidade há três anos.

“Comecei a trabalhar com arquitetos e eles queriam muitas coisas que não tinham como colocar ali porque não cabiam. E eu também precisava ampliar com mobiliário. Um dia, meu gerente abriu as portas pela manhã e reparou que o prédio em frente, que era maior, iria ser esvaziado (era uma academia). Falei com o dono que queria alugar e reformamos tudo”, afirma.

A iluminação natural em todo o andar térreo do estabelecimento, em meio aos ambientes montados, é um dos xodós da empresária, adaptados de uma loja que viu na Holanda – um dos 48 países que conheceu – em que a iluminação era acionada conforme se percorria os espaços. Foi um dos tantos sonhos concretizados por Dilma, do mesmo jeito que aconteceu em tantas residências, cada uma do seu jeito, dentro e fora do País.

“Minha ideia sempre foi deixar a casa das pessoas mais bonitas e passar esse sentimento que eu tenho quando decoro a loja. Quero ver o cliente olhar e sair lágrimas dos olhos, porque ele tinha uma ideia do que queria, mas não sabia passar. E tenho facilidade de interpretar isso. Quando faço a curadoria das peças, sou muito exigente, o mesmo para a montagem e para os funcionários. Treino um por um para que tudo saia perfeito. E sempre estou aprendendo, fazendo cursos, lendo e indo às feiras para descobrir as novidades. E fico de olho na concorrência para trazer algo diferente”, resume.

Assessoria em decoração é outro trabalho desenvolvido pela Dilma Machado – Coisas da Casa. O local é fotografado e, na loja, são separadas para o interessado. Se gostar, fica. Caso contrário, volta. “A gente também faz por Whatsapp. O cliente pode mandar as fotos e a gente envia os registros das peças. Se há alguma dúvida, a gente leva duas ou três que percebemos que irá ficar bom. Trabalho de nossa equipe”, completa. Atendimento aos arquitetos, decoradores e designers também é feito. “Levamos as peças a um destes profissionais, colocamos no local estipulado e arrumamos tudo, deixando tudo limpinho, causando surpresa e realizando sonhos”.

Tendências

Como de hábito, Dilma Machado não para. Enquanto concede entrevista para a Mais Santos, a empresária projeta novas reformas da loja, a chegada de peças, a arrumação de estoque, conversa com quem chega, orienta os funcionários e ainda observa o ambiente pela janela.

“É importante fazer a energia circular. Trazer outras energias é muito para o comércio. E aqui o meu pessoal é movido pela energia. Falo que o universo conspira a nosso favor. Pense positivo que atrai”, recomenda.

Em meio à positividade, o assunto passa a ser o design, assunto que naturalmente empolga Dilma Machado. A empresária lembra que a época é do bonito e do belo.

“Antigamente, a torneira era uma torneira, com três ou quatro opções. Hoje você tem torneiras de todos os tamanhos e cores. Estamos voltando uns 30 anos no tempo, com cada cor em uma época. Depois entramos no básico. Engraçado que se você pegar a arquitetura, as artes e outras coisas há o avanço e, agora, retomamos isso, voltando às cores. É cíclico”, diagnostica.

Não bastasse isso, o ser humano também está sendo valorizado em primeiro lugar, lembra a empresária. Tudo, então, precisa ser orgânico. “O sofá, as esculturas, as reproduções são arredondadas. Precisa ser curvo porque o ser humano não tem nada que seja bico. Todas as suas partes são arredondadas. Não há nada reto. Então é orgânico”, explica. “Há também a rapidez da comunicação. Um grande artista desenha um copo na Europa e o santista já está copiando aqui pouco depois, ainda que com material mais barato e uma técnica mais simples. Fora os projetos via Whatsapp, facilitando o contato com o cliente, o fornecedor e o empresário, do outro lado do mundo”, emenda.

Dentro do assunto, Dilma Machado lembra que as pessoas estão buscando cada vez mais um ambiente intimista, de se preocupar mais com a casa – situação provocada pela pandemia de Covid-19 e o consequente isolamento -, em meio a itens clássicos e sazonais. “Trabalho com artesanato também, mas é um artesanato sofisticado. Tem o artesanato comum feito de barro, capim, palha e qualquer outro tipo de material. E tem o artesanato com design. É esse que você vê na loja na qual eu trabalho. E está voltando isso de você se introspectar, voltar à origem, que é a terra, a água, o respirar”, define.

Conhecimento

Falando em comunicação, Dilma Machado faz questão de passar tudo o que sabe para todos os seus colaboradores, sem nenhum problema que eles saiam um dia da Coisas da Casa e abram um estabelecimento concorrente, até porque a disputa comercial e das novidades também a estimula.

“Eu não tenho nenhum segredo. Minhas funcionárias conhecem os fornecedores, passam nota fiscal, fazem tudo. Qualquer uma delas pode, a qualquer momento, montar uma loja própria ou ir para outra e passar essas informações. Não há problema quanto a isso”, afirma.

Transmitir conhecimento faz parte da vida de Dilma Machado. A empresária até lembrou dos tempos em que foi professora do segundo ano primário (atual Ensino Fundamental) em Cubatão, com apenas 17 anos e alunos repetentes de 16.

“A diretora queria que eu fizesse a alfabetização com a cartilha do Vovô Viu a Uva. Um menino dessa idade não quer saber disso. A educação tinha que ser diferente. Levava a molecada para aprender matemática na feira, fazendo contas de frutas e verduras. Quase me mataram. Do jeito que é a nossa educação, a criança não aprende. Decora para passar na prova e de ano”, relembra. “Sou seca por cultura. Vejo algo e quero contar logo para todo mundo. E não é só na minha área. Quando viajo, não fico apenas na catedral e nos museus. Vou também à periferia”, emenda.

Até por essa concepção de mundo nem poderiam ser diferentes os mantras de Dilma Machado: “Nunca parar de crescer” e “Nem que viva 100 anos, nunca pare de aprender”. É como, por sinal, a empresária se define, além de mãe de Fabiana, que trabalha na parte administrativa e financeira da Coisas da Casa, enquanto os filhos Eduardo e Márcio, que residem em Vitória, capital do Espírito Santo, lidam com reciclagem. Algo que ela conhece muito bem desde sempre.

“Hoje o lixo é um luxo. Antes chamava de ferro velho. Mas essa cultura eu tenho há uns cinquenta anos porque na minha casa já se fazia isso, como passar a roupa de um filho para outro, afinal eram sete. Peço, por exemplo, para as funcionárias não jogarem fora plástico com bolha. Se estiver amassado, serve para calçar algo para não quebrar. É menos lixo no mundo”, conta. “Quando eu vou ao restaurante e sobra comida que eu não quero levar para casa, acabo levando e dou para uma pessoa que estiver pedindo dinheiro. Não jogo nada fora. O brasileiro ainda não tem essa cultura. O americano pensa por ano, enquanto o brasileiro por dia e não dá valor”, emenda. É uma rotina tão intensa quanto a da empresária em cada dia de trabalho na Coisas da Casa.

Fotos: Ted Sartori