A volta final do ano vem recheada de clichês como aquelas frutas ruins de panetone e, como em um looping eterno, já não cumprimos o que prometemos e voltamos a prometer as mesmas coisas antes que os lindos fogos de artifÃcio iluminem nossas retinas cansadas de enxergar hipocrisia e desesperança nos últimos 12 meses.
Dieta, namoro, emprego, parar de fumar e de beber e de mentir (ou não?) entram no top 10 de um mês em que os religiosos clamam para si que “esqueceram do aniversariante†enquanto os céticos só esperam por aquela semana de festa e muita comida. Minha preferida é a nectarina, só aparece na feira depois que Papai Noel leva o trenó para a revisão.
Uns se travestem de um bom sentimento esquecido por tanto tempo, outros veem nisso uma hipocrisia e reclamam, há os que gastam saliva e digitais reclamando dos que reclamam dos que reclamam enquanto o centro da cidade e os shoppings mais parecem formigueiros e é impossÃvel não chegar todo grudado de suor depois de uma maratona para comprar presentes.
Vale lembrar dos famigerados a reclamar por não terem ganho um presente seu, enquanto outros viram os olhos decepcionados com sua lembrancinha para não passar em branco e alguns marejam os olhos, surpresos pela demonstração de afeto. Faz parte do show.
Quando mais novo, tinha dó de todos aniversariantes desse mês, achava que eles ficavam ofuscados pelo filho do Cara. Hoje, tenho dó de todos os que dão boas vindas a um mês nas redes sociais como se lá ele tivesse conta para logar, curtir, responder e postar selfies narcisistas.
Sei lá, esse mês é muito louco: Simone, vinheta da Globo e da Marabraz, ligações de parentes distantes e indesejáveis, crianças ensandecidas querendo brinquedos carÃssimos e muita gente ganhando a vida como um Papai Noel dos trópicos, suando enlouquecidamente.
Comercializamos de tudo para festejar o aniversário cristão em um estado laico e até bebemos todas em Seu dia. Uma semana depois, viramos o ano entorpecidos como se zerássemos nossos problemas como quem fecha um jogo de videogame.
Enquanto isso, material escolar, IPVA e tantas outras artimanhas matreiras como Satanás nos aguardam na próxima folha do calendário.
Como conseguimos gostar disso tudo? Quando encontrar uma solução, aviso vocês.
Sei que esse é o mês mais humano e clichê do calendário. Essa coluna também.