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Brasil / Política

Pesquisas eleitorais acendem sinal de alerta para especialistas, eleitores e governo

Por Silvia Barreto e Ted Sartori
Da Revista Mais Santos

Passado o primeiro turno das eleições deste ano, a análise de cientistas políticos e eleitores é sobre os prognósticos errados nas pesquisas. Em vários estados e, principalmente na disputa presidencial, as urnas mostraram números bem diferentes dos projetados até a véspera da votação.

Os casos mais emblemáticos, entre tantos, foram os de Tarcísio de Freitas para o governo e do astronauta Marcos Pontes para o Senado, em São Paulo, e de Hamilton Mourão para o Senado no Rio Grande do Sul. Estavam 10 pontos atrás dos favoritos e apareceram quase 10 à frente. Cláudio Castro, no Rio, teve 14 a mais do que o previsto.

Terem errado a votação de candidatos da direita em sua maioria é que foi, entretanto, a grande novidade. Trata-se de um dado novo que pode explicar o fiasco e sinaliza uma avaria grave e, talvez, definitiva na credibilidade, porque destruiu o próprio método com que trabalham.

O sócio-proprietário do grupo Enfoque/Boqnews e professor universitário Fernando de Maria conta que desde 1996, quando iniciou o trabalho de pesquisas eleitorais, na grande maioria das vezes os resultados do trabalho foram positivos.

“Nosso universo é Santos, mas já fizemos a Baixada Santista, o que é mais complicado porque você coloca a Região como se fosse uma cidade só, mas individualmente tem um peso menor, porque é diferente de você fazer 802 pesquisas em Santos do que fazer 1.200 na Baixada Santista. Na medida em que o número de pesquisas diminui, a margem de erro aumenta”, analisa.

O especialista teme as críticas que se fazem às pesquisas eleitorais e a tentativa de criminalização de até 10 anos, para quem divulgar pesquisas eleitorais com números que se mostrarem fora da margem de erro, ao serem comparados com o resultado das urnas. A proposta pertence ao líder do governo na Câmara, o deputado Ricardo Barros (Progressistas-PR)

De acordo com informações da Liderança do Governo, o texto tipifica a conduta de publicar, nos 15 dias anteriores à data da eleição, pesquisas com dados que divirjam, além da margem de erro, do resultado apurado nas urnas. A pena será de reclusão entre 4 a 10 anos e multa.

“Como o ex-ministro Ricardo Barros, deputado Federal quer criminalizar as pesquisas que errarem. Isso está me cheirando a censura. A partir do momento em que se coloca mais restrições, corre-se o risco de censurar as pesquisas e a população tem direito de saber quem está na frente. São várias questões que precisam ser colocadas em pauta. Uma delas é que as pesquisas têm base científica. Houve, sim, uma explosão de pesquisas, de grupos e institutos de pesquisas, sendo vários deles não regulamentados. Nós da Enfoque somos ligados ao Conselho Regional de Estatística, mas nem todos são”, alerta.

Para De Maria, a origem da pesquisa está no trabalho de campo, necessitando estar bem preparada e montada e com o perfil do eleitorado. Ele chama a atenção para o risco do trabalho dos pesquisadores e o trabalho de averiguação, tão importante, que é feito por amostragem.

“Se o entrevistador está em campo e quiser ‘sacanear’, ele pode. Isso em qualquer instituto de pesquisa para A, B ou C. As pesquisas não erraram em relação ao ex-presidente Lula. O Datafolha tinha dado 37%, no domingo, para o Bolsonaro e essa onda acabou se revelando. Tanto é que em vários estados aconteceu mesmo e não perceberam essa onda, não apenas para presidente, mas em São Paulo para o Senado e o Governo do Estado. Essa onda você, às vezes, não identifica, pois tem aquele voto envergonhado, onde o cidadão diz que vai votar em fulano, ou que não sabe, mas no fundo ele já sabe em quem votar”, avalia.

Uma alternativa para minimizar esse tipo de situação, segundo De Maria, é que se tenha mais perguntas no questionário que proponham uma visão melhor do cenário.

“O maior problema para o Instituto que erra é a sua credibilidade. Nós da Enfoque acertamos as tendências. Fechamos a pesquisa quase uma semana antes das eleições”, celebra.

Por sua experiência nesse ramo, ele diz que as pesquisas podem influenciar alguns eleitores, mas nem todos. “O meu temor, volto a dizer, é censurar as pesquisas. Como jornalista, vejo que há uma supervalorização das pesquisas”, destaca ele, falando sobre a posição da imprensa em discutir o resultado das pesquisas, ao invés de divulgar as propostas dos candidatos.

“As pesquisas são importantes. Devem ser como direito do cidadão em se informar. Se não tiver interesse, ele não vai atrás. Sou contra qualquer tipo de censura, limitação em divulgação como não poder divulgar a pesquisa no dia da eleição. Por que não? É um direito do cidadão. Acho um absurdo essa tentativa de criminalização das pesquisas e essa questão da penalização e investigação. A própria credibilidade do instituto é o preço. Esse é o maior bem que o instituto pode ter: a sua credibilidade”, reforça.

O líder do governo Bolsonaro quer limitar o poder de escolha da imprensa sobre as informações de intenção de voto que decide reproduzir. Segundo Ricardo Barros, quando publicar determinado levantamento, o veículo de comunicação será obrigado a divulgar todas as pesquisas registradas na Justiça Eleitoral no mesmo dia e na véspera. Quem infringir a norma deverá pagar multa de mil salários mínimos, o equivalente a R$ 1,2 milhão.

Atualmente, não existe esse tipo de regra. Os veículos de imprensa têm liberdade de escolher as pesquisas que reproduzem. Podem, inclusive, contratar levantamentos de empresas de sua confiança. Devem, apenas, informar os dados técnicos sobre a pesquisa, como data, quantidade de entrevistados, locais e margem de erro. Durante as eleições, somente pesquisas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) podem ser divulgadas.

O REFLEXO DO VOTO

A cientista política Beatriz Finochio avalia a tendência, que se manteve, no estado de São Paulo pela direita, já que Bolsonaro teve vantagem sobre Lula no estado. “Por isso, é possível prever que a vitória do candidato Tarcísio, apoiado pelo presidente Bolsonaro, é mais provável que a de Haddad. Importante ainda ressaltar que o PSDB, após 30 anos no poder, sequer foi para o segundo turno”, alerta.

O resultado foi positivo para a Região Metropolitana, pois na avaliação da especialista mostrou um amadurecimento político dos eleitores. “O eleitor brasileiro está menos alienado e mais maduro. Essa eleição mostrou justamente que, embora haja uma polarização, a política já está mais na pauta do brasileiro do que antes. A alienação saiu de cena, embora a polarização seja a pauta. Pelo menos temos a política como assunto entre a população”, garante.

A conquista de cadeiras nas esferas estadual e federal servirão, de acordo com Beatriz, como instrumentos para o crescimento da Baixada Santista. “Observamos que a representatividade da região será marcada nos Congressos nacional e estadual, o que, sem dúvidas, traz mais chances de aprovação de leis, repasse de receitas que beneficiam a Baixada com conhecimento de causa, ou seja, com o que realmente é necessário”, projeta.

A cientista critica a vitória e o comportamento de alguns candidatos. “Cumpre observar que não estamos longe de anomalias, tais como Zema, governador de um estado, reeleito em primeiro turno, ter nos mesmos eleitores apoio a Lula. Esse cenário mostra justamente a falta de conhecimento ideológico do que é política”, finaliza.

Foto: Reprodução